11 Set 2026
Artigo: "O Brasil e a Recente Eletromobilidade nos Transportes"
Marco Brandemarte
A eletromobilidade nos centros urbanos é e sempre foi uma preocupação constante, e tem tomado maiores proporções nos últimos anos. No Brasil do século XIX, mais especificamente na cidade do Rio de Janeiro, na década de 1890, surgem os primeiros bondes elétricos, seguidos dos pioneiros ônibus a bateria, em 1916, também na capital fluminense. Estes últimos porém rodaram por pouco tempo, devido às dificuldades enfrentadas pelos modelos à época: enormes baterias, extremamente pesadas, de baixíssima autonomia e tempo de recarga muito lento, tornando-os rapidamente inviáveis frente a demanda crescente por transportes nas cidades.

Bonde elétrico J.G.Brill no Rio de Janeiro - início da década de 1910.
(Foto: J.G.Brill / acervo Allen Morrison).
Sendo assim os bondes reinaram absolutos, frente ao custo baixo da eletricidade, até o fim da década de 1940, quando surgem os primeiros sistemas de trólebus no Brasil. Entre altos e baixos, devido ao alto custo dos veículos e peças, os trólebus tinham a vantagem de não precisarem de trilhos para se locomover, sendo inaugurados diversos sistemas pelo país até início da década de 1980, quando começam a sofrer retração, principalmente por conta do alto custo da energia elétrica, antes subsidiada pelo governo.
Como o Brasil deu prioridade ao transporte individual e rodoviário, sempre buscando menores custos, sem se preocupar com o futuro, o ônibus a diesel dominou o cenário das cidades, tanto nas pequenas quanto nas metrópoles, com pouquíssimo planejamento e corredores, transformando o ambiente das cidades num caos total. Só para se ter uma ideia a cidade de São Paulo possui apenas 135 km de corredores exclusivos de ônibus, e pouco mais de 100 km de rede metroviária.
Nos últimos anos assistimos a um modesto “boom” na eletrificação das frotas de ônibus de algumas cidades brasileiras, com destaque novamente para São Paulo, que continua priorizando o transporte por ônibus, numa meta de substituir 2200 ônibus movidos a diesel por veículos de matriz energética mais limpa, segundo o Programa de Metas de 2025 a 2028 (a cidade possui atualmente 1759 veículos elétricos em sua frota contratada, representando cerca de 13% do total de 13573 veículos do sistema municipal).

Ônibus elétrico na cidade do Rio de Janeiro, em frente ao Palácio Monroe - 1920.
(Foto: Augusto Malta / Portal "Rio Memórias").

A indústria nacional de ônibus elétricos tem capacidade e know-how para atender à demanda atual crescente, mesmo frente à concorrência estrangeira, com produtos de qualidade e que suprem demandas específicas, dependendo do cenário. Todo esse conhecimento vem da indústria nacional de trólebus, quando a Villares lá em 1959 fabricou seus primeiros trólebus, com índice de nacionalização de mais de 80%. Indústria esta que acompanhou a evolução mundial, superando muitas vezes a tecnologia estrangeira com soluções específicas para o mercado doméstico. Prova disso é a tecnologia “inmotiom” ou trólebus IMC, onde o veículo circula tanto na rede aérea como a bateria pura, dependendo do trecho, tornando a implantação do sistema mais barata pois não necessita da rede aérea em todo o trajeto, e ainda por cima carrega as baterias quando conectado à fiação, diminuindo a infraestrutura com carregadores estacionários.
O primeiro trólebus fabricado no Brasil pela Grassi/Villares.
(Foto: acervo São Paulo Transporte .

A indústria da eletromobilidade leve no Brasil também vive um momento de forte aceleração, com a marca de 950 mil veículos eletrificados em circulação em agosto de 2026 e a previsão de alcançar um milhão de unidades em setembro. O país registrou mais de 57 mil emplacamentos de veículos leves elétricos em agosto de 2026, um aumento de 184% em relação ao mesmo mês de 2025, representando cerca de 24% das vendas totais. Os modelos plug-in (100% elétricos BEV e híbridos plug-in PHEV) dominam a preferência, representando 83,1% das vendas do segmento em agosto de 2026. O país já conta com mais de 25 mil pontos de recarga públicos e semipúblicos mapeados pela Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE).
Aqui cabe um parênteses em se falando de carros elétricos: a ideia não é nova e no Brasil, mais especificamente na década de 1970 destacamos duas empresas que se preocuparam e tentaram a duras penas realizar o sonho de produzir o carro elétrico genuinamente brasileiro: Gurgel e Engesa. A Gurgel em 1974 lança seu modelo Itaipu E-150, um veículo a bateria compacto de 2,65 metros de comprimento; em 1981 lança uma picape elétrica, modelo E-400. A Engesa, por sua vez, se aventura com um microônibus elétrico também a bateria, apresentando o protótipo no II Congresso da ANTP-Associação Nacional dos Transportes Públicos, em 1979. Ambas experiências se limitaram a protótipos ou poucas unidades vendidas, numa falta de incentivo e apoio à indústria brasileira, por parte da população e governos locais.
Atualmente a mobilidade sustentável vive um momento decisivo na América Latina. Neste cenário o Brasil emerge como protagonista, se consolidando como um polo regional da mobilidade sustentável, atraindo fabricantes globais, investimentos industriais, centros de pesquisa e eventos internacionais voltados à transição energética e à eletromobilidade. A transformação porém vai além do aumento nas vendas de veículos eletrificados. Ela envolve a construção de um ecossistema capaz de impulsionar inovação, produção local, geração de empregos qualificados e desenvolvimento tecnológico.
O país vem atraindo investimentos em pesquisa, desenvolvimento, infraestrutura de recarga, conectividade, baterias e novas tecnologias ligadas à mobilidade inteligente. A nova fase da mobilidade sustentável será marcada pela integração entre eletrificação, conectividade, inteligência artificial, gestão energética e cidades inteligentes. E o Brasil tem potencial para liderar essa agenda regional.
Outro indicador do protagonismo brasileiro é a crescente realização de eventos internacionais no país. Nos últimos anos, o Brasil passou a sediar alguns dos principais encontros latino-americanos sobre mobilidade sustentável, descarbonização e transição energética. Esses fóruns reúnem fabricantes, governos, operadores de transporte, empresas de energia e especialistas de diversos países para discutir os rumos da eletromobilidade na região. Essa posição fortalece a capacidade do país de influenciar políticas públicas, estimular cooperações internacionais e acelerar a troca de conhecimento técnico.
O fortalecimento da eletromobilidade ocorre em paralelo aos esforços de reindustrialização e modernização produtiva do país. Iniciativas voltadas à inovação, à produção nacional e ao desenvolvimento tecnológico criam um ambiente favorável para consolidar uma cadeia de valor mais competitiva e sustentável. A combinação entre matriz elétrica renovável, capacidade produtiva, mercado consumidor e competência tecnológica coloca o Brasil em uma posição privilegiada.
Mais do que acompanhar a revolução da mobilidade sustentável, o Brasil reúne condições para liderar essa transformação em toda a América Latina. Com investimentos crescentes, expansão da infraestrutura, fortalecimento da indústria e um mercado em rápida evolução, o país consolida sua posição como referência regional em inovação, desenvolvimento industrial e transição energética.
O trólebus nacional fabricado no início da década de 1980 trazia o que mais havia de moderno em relação a conforto e sistema de tração.
(Foto: Revista "Transporte Moderno").

São Paulo possui hoje 1570 ônibus movidos a bateria e 189 trólebus. A frota elétrica evita o consumo de cerca de 57 milhões de litros de diesel e reduz 130 mil toneladas de CO₂ por ano, segundo a Prefeitura.
(Foto: Marco Brandemarte).

Protótipo do microônibus elétrico Engesa, construído no final da década de 1970.
(Foto: Revista "Transporte Moderno").

Carro elétrico Gurgel E-150.
(Foto: Revista "Quatro Rodas").

Pickup elétrica Gurgel E-400.
(Foto: Revista "Quatro Rodas").
